Nasci no final dos anos 60 e também criado na capital goiana. Apesar das grandes dificuldades econômicas que meus pais viviam, me lembro que por volta dos meus 4 ou 5 anos, lá em casa sempre tinha boa música, cantigas, poesias, danças e muita folia de reis. Esse ambiente sempre propício à criatividade e arte me favoreceu, e muito a minha formação musical e também autodidata. Tinha ainda os ‘corinhos’ da igreja batista que estava sempre na ‘ponta da língua’. Os cânticos da escola bíblica de férias mais recente estavam sempre em nossa boca, e em primeira mão. Era muito bom. Bom demais! Não posso me esquecer também dos hinos do cantor cristão, que sabíamos de cor e salteado. Havia até uma ‘boa’ disputa entre nós pra ver quem sabia mais hinos. Aliás, lá em casa, a gente fazia um culto completo, com liturgia, louvor, pregação, e ainda com direito às ‘ofertinhas’.
Nessa época, a televisão já fazia sucesso no Brasil. A TV que tínhamos era uma “Teleotto”, preto e branco e que pra selecionar um dos 4 canais que tinha disponível, era preciso torcer ‘com força’ um grande botão. Mas aquele aparelho ali, com certeza, iria modificar sobremaneira nosso dia, tornando-o muito mais interessante; se bem que, o que não faltavam nas ruas eram brincadeiras de tudo quanto é tipo. Foram aqueles cânticos da igreja e as telenovelas que formaram meus ‘ouvidos musicais’.
Perto dos meus 13 anos já começava a ‘arranhar’ violões alheios e aos 15 já estava compondo minha primeira canção: “Abri a janela”, cuja letra já denunciava o meu envolvimento e dependência do Deus da Bíblia. Vibrava com cada poesia, cada canção, cada acorde novo que aprendia. Participei bastante também dos festivais de música que, aliás, as igrejas não abriam mão de realizá-los. E, lá estava sempre eu, querendo mostrar, participar. Toquei também em diversos grupos musicais que surgiam na minha igreja. Até banda de rock cristão, como gostávamos de chamar, participei.
Foi num desses festivais que participei com uma canção a qual intitulei de “Brasileirar”, e para minha surpresa, ganhei um segundo lugar. “Brasileirar”, uma música com timbragens e ritmos bem brasileiros, e que ganhou uma letra que provocava a discussão e reflexão sobre os movimentos sociais, isso, em meados dos anos 80. Na época ardia nos corações da juventude brasileira uma incrível vontade de mudar, de denunciar, de ver o Brasil com a cara e alma limpa de injustiça e governantes corruptos. Mesmo que para isso tivessem que pintar a cara de verde e amarelo, e o ‘sete’ também.
Muitas outras canções também foram surgindo de forma muito espontânea, em casa, nos retiros, nas viagens missionárias. A criação fluía como nunca. Agora, com a oportunidade que tive de gravar várias daquelas músicas, escolhi então como título do trabalho: “Brasileirar”, por entender que depois de muitos anos, o Brasil ainda clama por justiça, tem sede de mudança, transformação de caráter de suas autoridades e também de seu povo. Por entender também que o cristianismo e toda a cultura que o cerca precisa de engajamento social, propondo sempre a reivindicação legítima, mas com equilíbrio e porque não, com a intermediação do poder do evangelho e da Palavra de Deus.
Sérgio Carvalho é membro da Igreja Presbiteriana da
Alvorada, em Brasília, e integrante do Ministério de
Louvor, está lançando seu primeiro Cd “Brasileirar”,
no próximo sábado, às 19h na IPA. O Cd estará à venda
ao preço único de R$ 15 reais.
