sexta-feira, 31 de maio de 2013

Pelo velho centro



Aqui dentro há uma cidade
Uma cidade onde vislumbro
O velho centro,
O velho mercado,
O velho lyceu,
A velha praça abandonada e descuidada que só.
 
No lugar das gaivotas, urubus.
As recordações de uma geração
Que tão ligeiramente por ali passou,
Nas juventudes
Mais profundamente aguerridas
Pelo fulgor das emoções que encobriam os corações.
 
É preciso reconquistar o velho centro
Aqui há um coração enfraquecido
Aqui há um amor esquecido
Há perdão
Há raiz
Há!
 
É preciso valorizar e redescobrir a cidade perdida,
Da ruína ao chão
Ao chão das nossas perdas
Nesse vão de solidão
Nessas vidas envaidecidas
Entristecidas pelo vento de razão
Que pra bem longe empurrou
                                           (Esmurrou...)
 
A infância de azuis manhãs de sol
A inocência de fulgazes aconchegos
Amores escondidos...
                                    (Em rol!)
 
Aqui dentro há uma cidade em paz
Onde vejo o amanhecer
O novo espaço a entardecer
O despertar do novo em mim
Nas praças e jardins
Do lilás, rosas, jasmins
                                 (...acolás)
Do azul, preto, enfim
                                 (...não jaz)
 
Dentro de mim há uma cidade reconstruindo
De tijolos, madeiras e telhas
Refaço janelas, soleiras
Repinto paredes, molduras
Rejunto ajulejos
Reconstruo chafariz
Libero a raiz
 
Reabro ruas
Reinvento quarteirões
Fecho fendas
Mato escorpiões
 
Dentro de mim há um espaço sim
Pra velhos e novos amigos
Pra achocolatados, cafés e chás
Bolachas, patês... pão francês
Boa música,
Boa poesia.
Boa prosa.
Bom verso.
 
Não meias palavras
Completas assim
Refugio enfim na nova cidade
De novo centro
Com pardais e sabiás
Do movimento peculiar
De cidadãos e cidadãs
Buscando novo ar
Um reconciliar dentro em mim
Um reconciliar!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Cerrado Esvair

Meu caminho não é mais o mesmo de outrora,
Meus passos descompassados se estabilizaram,
Juntamente com o olhar estarrecido, amarelecido.
Boquiaberto fiquei por tuas agruras sofridas,
Porque os horizontes já não são mais os mesmos!
O verde de tuas folhagens transformou-se em cinzas,
Que presenciou a fumaça voraz,
O chão pedregoso, cruelmente castigado,
És recém-judiado e refém-maltratado!


Os retorcidos de suas árvores aniquilaram-se entre fagulhas estalantes,
E os meus pés como brasa só queriam por ti sofrer.
O meu canto embargado com desencanto cintilar,
Balbuciei em letras a destruição de seu altar.
E por eles eu chorei, implorei, denunciei, mas não relevei!
Por ti também assim orei ao Criador: não ao fogo-incandescente destruidor!
Não por suas entranhas intoxicadas!
E por amor preferi recitar, sem parafrasear,
Mas para memória dos fracos enxertar:


Por nossas antas, capivaras e lobos-guarás, cervos, lontras e gambás.
Pelas esperanças, grilos, bichos-paus, percevejos, bombeiros e baratas.
Pelas mariposas, borboletas, marias-fedidas, cigarrinhas e cigarras.
Pelas matas, rios, araras, quatis, tamanduás, veados e pacas.
Por eles ecoo meu grito estridente,
Ecoe então minha voz pra toda gente ouvir!
E que ressoe em troca um basta à judiação!
Pois se assim permanecer, de antemão adianto:
Suas paisagens e horizontes logo se acabarão!
E jazerás nas cinzas onde esvairás sua história, forma e encanto!
Tive a honra de participar com esse poema num ajuntamento de artistas,
 poetas, músicos e amantes da causa ecológica.
Foi publicado juntamente com muitos outros numa coletânea
 organizada pela administração do Guará, DF em 2011.
Espero que gostem!