sexta-feira, 24 de maio de 2013

Cerrado Esvair

Meu caminho não é mais o mesmo de outrora,
Meus passos descompassados se estabilizaram,
Juntamente com o olhar estarrecido, amarelecido.
Boquiaberto fiquei por tuas agruras sofridas,
Porque os horizontes já não são mais os mesmos!
O verde de tuas folhagens transformou-se em cinzas,
Que presenciou a fumaça voraz,
O chão pedregoso, cruelmente castigado,
És recém-judiado e refém-maltratado!


Os retorcidos de suas árvores aniquilaram-se entre fagulhas estalantes,
E os meus pés como brasa só queriam por ti sofrer.
O meu canto embargado com desencanto cintilar,
Balbuciei em letras a destruição de seu altar.
E por eles eu chorei, implorei, denunciei, mas não relevei!
Por ti também assim orei ao Criador: não ao fogo-incandescente destruidor!
Não por suas entranhas intoxicadas!
E por amor preferi recitar, sem parafrasear,
Mas para memória dos fracos enxertar:


Por nossas antas, capivaras e lobos-guarás, cervos, lontras e gambás.
Pelas esperanças, grilos, bichos-paus, percevejos, bombeiros e baratas.
Pelas mariposas, borboletas, marias-fedidas, cigarrinhas e cigarras.
Pelas matas, rios, araras, quatis, tamanduás, veados e pacas.
Por eles ecoo meu grito estridente,
Ecoe então minha voz pra toda gente ouvir!
E que ressoe em troca um basta à judiação!
Pois se assim permanecer, de antemão adianto:
Suas paisagens e horizontes logo se acabarão!
E jazerás nas cinzas onde esvairás sua história, forma e encanto!
Tive a honra de participar com esse poema num ajuntamento de artistas,
 poetas, músicos e amantes da causa ecológica.
Foi publicado juntamente com muitos outros numa coletânea
 organizada pela administração do Guará, DF em 2011.
Espero que gostem!

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